Sabe qual é a melhor maneira de
escrever? Estar em um ócio de domingo no fim da tarde, sozinha, acompanhada de
uma caneca de café quente, forte e sem açúcar. Uma tarde de verão comum no
Recife, onde uma simples brisa faz toda a diferença. Ultimamente não consigo
fazer esse ritual de produção, esse mantra para organizar os pensamentos que
brotam nas aulas de Filosofia da Arte e de História da Alimentação, nas
conversas com os turistas que visitam o museu que trabalho ou pelas “arruanças”
por Olinda e Recife. Ao contrário do que preciso para escrever, ando muito
ocupada em estar entranhada nos ciclos sociais que faço parte e que cobram (e
como cobram) atenção redobrada...
Sair cedo e voltar tarde nos dias
úteis faz com que os fins de semana sejam dias ansiosamente esperados, intensamente
aproveitados e não tão úteis como o resto da semana. Ando tentando seguir meus
cronogramas e conciliar todos os ciclos em que normalmente um ser humano tem, o
que acaba me deixando sem tempo para aquelas conversas que a gente tem dentro
da própria cabeça. Sinto falta desses momentos de ócio, principalmente nos
momentos em que me vejo negligenciando alguns projetos antigos e dando
prioridade aos novos. Há quem diga que isso é defeito de fabricação do
geminiano (risos).
Pensei em começar esse texto
tirando um pouco o foco de mim e direcionar para algo sobre filosofias
existencialistas e realistas em que temos que lidar todos os dias, porém nada
mais filosófico do que você trazer sua própria realidade para um texto. A
penseira do Dumbledore que a J.K. Rowling cria para que ele possa aliviar o
peso dos pensamentos na cabeça é, para mim, a melhor descrição do que é o ato
de escrever.
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Pandora - J. W. Waterhouse (1896) |
Li um texto sobre a obra de
Francisco Brennand escrito por Roberta Aymar que dizia o seguinte; "Leituras enviesadas do mito,
ao longo da história, trataram de metaforizar Pandora negativa e capciosamente
como símbolo e corolário da incontrolável e inconsequente imprudência feminina.
Ao estar diante da obra do artista, senti-me como uma Pandora recriada,
reeditada anacronicamente. Todavia, não mais diante de uma caixa proibida, mas
dentro da caixa dos espelhos da humanidade.”. E vi traduzido em paixão tudo
aquilo que aprendi nas aulas da universidade, coisas que todo (aspirante a) historiador
sabe – não existe verdade única.
Lembrem-se: um ex-gordo vê o mundo diferente de um magro!